How stuff works: o pato no tucupi

09/10/2009

patonotucupi

É tempo de pato no tucupi em Belém, Pará! Típico da culinária regional, o prato é preparado para a comemoração católica pelo dia da padroeira da capital, todo segundo domingo de outubro. Mas não importa a crença ou descrença, a gente acaba sendo seduzida pelos cheiros e sabores das iguarias.

O pato não é comida corriqueira. O preparo é demorado e requer paciência.  Aprendi o ritual ao observar mamãe fazê-lo para nossos almoços de aniversário e festas de fim de ano em Santarém. Para começar, era preciso garantir um pato gordo. Semanas antes, ela encomendava a ave a algum vizinho criador – de quintal mesmo. O bicho era entregue vivo ou morto. Na véspera da “festa”, limpo e  em pedaços, o pato era banhado no vinha d’alhos. No dia seguinte, bem cedo, íamos à feira para comprar os outros ingredientes: tucupi, jambu e cheiro verde frescos. Lá tem feira a semana inteira.

O tucupi é o sumo da mandioca amarela, levemente fermentado. Escolhíamos sempre o menos azedo da banca de confiança que vendia produto honesto sem água em demasia ou corante artificial. Eram dois litros de tucupi “do bom” para um pato médio.

Da verdureira, levávamos dois maços de cheiro verde (alfavaca, cebolinha, coentro e chicória-do-Pará) e dois maços bem verdes de jambu, uma folhagem que dá um tremor engraçado na língua. Os comensais de primeira viagem divertem-se ou assustam-se com essa característica do jambu.

Já em casa, mamãe cozinhava rapidamente o pato na panela de pressão, só para amaciar. Em outra panela, fervia o tucupi com alho amassado, o cheiro verde, cebola fatiada, duas pimentas comari inteiras e pimentas de cheiro.

Depois, ainda era preciso assar o pato. E o cheiro espalhava pela casa… enquanto o jambu cozinhava em água e sal até os talos ficarem macios.

Assados, os pedaços de pato eram mergulhados com cuidado na panela do tucupi temperado. Fervia mais um pouquinho, juntava as folhas do jambu e mais cheiro verde. O que é a lembrança do cheiro?!!…Tampava a panela. Desligava o fogo. Deixava lá por uma meia hora ou mais para apurar o sabor. Servia com arroz branco……………  Quem comeu, sabe que vale cada minuto do tempo de preparo.

Felizes lembranças gastronômicas!

[ao  Mario Camarão, querido amigo, que ama tucupi com qualquer coisa]


Pingos mocorongos/santarenos

19/01/2009

A realidade digital é lerda: trabalhar com auxílio da web, em Santarém, não é para os fracos!

A realidade social é nua: as ruas, o transporte público, o sistema de esgoto, o abastecimento de água – e as pessoas que não moram no centro – merecem mais respeito do governo santareno.

A realidade ambiental é cega, surda e quase-muda: poucas vozes aparecem pra tentar mudanças no oeste do Pará.

A realidade jornalística é amadora: mas há boas promessas no mercado!

A realidade política é bizarra: prefiro não comentar – veja o blog do Jeso no blogroll .

A realidade gastronômica é voluptuosa: e vai muito bem, obrigada!


tchau, 2008!

26/12/2008

button_reset1

Já estou quase pronta para dar um reset no ano.

Ainda preciso terminar de arrumar a mala e os arquivos para passar o mês de janeiro em Santarém-PA, minha cidade-natal, onde vive minha família.  Dessa vez, vou a passeio e a trabalho também. É certo que não terei como fugir de ouvir o bregapop (coisas da vida…rs)… Continuarei atualizando o blog semanalmente.

Centro da cidade de Santarém-pa

Vista do centro da cidade de Santarém-PA e a imensidão do rio Tapajós.

(não sei quem é o autor da foto)


Anotações sobre o ambiente

05/11/2008
goat balls - by Steven Alexander

goat balls - by Steven Alexander

Quem me acompanha há algum tempo sabe que sou fã do escritor americano Henry Thoreau, especialmente por sua obra “Walden”. Neste livro, além de filosofar sobre a vida, o homem e a sociedade da época (1850), ele observou e descreveu a natureza nos arredores de sua cabana, às margens do lago Walden, em Massachusetts. A novidade é que as anotações feitas por Thoreau sobre a vegetação da região estão sendo usadas agora por pesquisadores para avaliar as mudanças ocorridas no clima desde o século XIX. Gostei de ler isso, não só pelo meu interesse pela obra do escritor, mas por valorizar o tipo de gente que dá atenção ao que acontece ao seu redor, mesmo sem pretensões científicas, apenas pelo simples deleite, digamos assim.

Nesse sentido, conheci há pouco tempo o blog Tropical Biodiversity, de  Steven Alexander, um americano que vive há décadas em Santarém-PA, e registra a fauna e a flora da região, aparentemente por hobby. Ele publica boas fotos e descreve cada um dos elementos fotografados. Quando encontra algo desconhecido,  pede ajuda aos nativos e aos leitores do blog. O que ele e Thoureau têm em comum? a experiência de vida em um bosque rico de informações e a intenção de compartilhar novidades sobre um ambiente um pouco misterioso e interessante para muita gente.

Por outro lado, acredito que, mesmo hoje, Thoreau não teria um blog para descrever o modo simples de viver em uma cabana no meio do mato.