Um ônibus pelo Recôncavo

22/04/2010

Há dois meses e meio, vivo em Salvador-BA e o que mais tenho feito é ouvir histórias. É o melhor a se fazer quando a gente é novo em um lugar.  Interessante é capturar as conversas das pessoas e entrevistar nativos sem que eles percebam. Tenho ouvido diálogos ótimos que repito em sala de aula, quase sempre como exemplos fortuitos para o assunto do dia.

O ônibus que tomo para ir à Universidade duas vezes por semana é a fonte de muitas tiradas engraçadas e de um pouco da cultura cotidiana do recôncavo.  De Salvador a Cachoeira são duas horas, mas é a partir da metade do caminho, entre Santo Amaro da Purificação e Cachoeira , que o ambiente fica rico em informação da vida alheia.  Os passageiros que sobem lá são mais desinibidos.

Mas já me aborreci com o pessoal que adora compartilhar em alto volume suas músicas prediletas no celular. Pela manhã, são as senhoras fãs de música gospel. No fim da tarde, são os rapazes amantes de tudo, desde  “good times” até forró  universitário.  Eu não mereço! Outro dia, também, dois professores da universidade conversaram sobre toda a parafernália da vida universitária durante as duas horas de viagem.  Naquele momento, preferi até ouvir “good times”  no celular – ou não escutar nada.

O vício de prestar atenção nas conversas de ônibus começou quando uma senhora, professora de pré-escola na zona rural de Gov. Mangabeira, sentou ao meu lado e contou durante uma hora e meia como é o seu trabalho em uma escola sem livros e as estratégias que os professores fazem para que as crianças desejem ir às aulas.  Jovenália, a “pró” [como chamam para professores],  falava pelos cotovelos.  Eu gostei de ouvi-la.

Houve um dia em que o cobrador do ônibus discutiu calmamente com uma passageira e disse que “passageiro quase sempre quer se dar bem em cima do cobrador, como se este fosse o dono do ônibus”.  E a mulher se calou.

Em um fim de tarde, uma moça da poltrona da frente falava ao celular com alguma amiga e pedia a ela que “por favor, não me aborreça. Eu acabei de fazer uma macumba poderosa. Estou de alma pura. Depois a gente conversa”. Deu vontade de rir.

Vi também um trio feminino discutindo sobre a melhor época do ano para se ter filhos. Uma delas dizia “ô, mulher, emprenha logo. Para de tomar remédio, que besteira é essa!? Se você emprenhar agora vai ser melhor.” Esse papo foi às 7 e meia.

Enquanto esperávamos o ônibus na rodoviária, uma senhorinha me ensinou como produzir sabão caseiro e usá-lo para afugentar moscas. Essa mulher, de  60 anos, me deu sua visão sobre economia no recôncavo. “Em Santo Amaro, tudo que eu colocar para vender, eu vendo. Pode ser cana descascada ou sabão caseiro. Mas em Cachoeira e São Félix ninguém compra nada.”

Fiz uma coleção aleatória de histórias nesses  dois meses de indas e vindas.  Vou sentir falta, quando não viajar mais por essa rodovia.

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Resolvi “legendar” essas falas hoje em homenagem a @Be_neviani, de quem eu lembrei em várias viagens.  Em alguns momentos, eu quis não ouvir, como ela. E em outras imaginei que ela ficaria tão curiosa com as cenas, que diria “tem legendas? você sabe que eu não posso ouvir”.  Feliz Aniversário, Bê!

Esse post faz parte do Prêmio Be_neviani – porque não basta twittar, tem que dispersar. Leia aqui mais sobre essa campanha criada pela @sibelefausto.


Um bom ano em terras fluminenses

29/08/2009

ponte Há um ano mudei de Vitória (ES) para Niterói (RJ). Estava precisando cuidar da minha saúde global. A rotina havia se transformado em cansaço… Não vim pra cá com emprego ou estudo garantido, motivos pelos quais mudei de cidade outras vezes. Resolvi seguir outra trilha.  O medinho inicial foi sobreposto por aquele velho ditado que diz que “quem não arrisca, não petisca”. Hoje estou bem melhor, saúde equilibrada, trabalho tranquilo e em aquecimento para voltar às salas de aula.


Trilha para um road movie

15/05/2008

on borderland we run/and still we run/we run and don’t look back.A sort of homecoming – U2