Jornalistas no laboratório, cientistas na redação

02/10/2011

“Seria muito interessante que o pesquisador, ao fim do doutorado, passasse um tempo na redação de um jornal para entender como é o processo do jornalismo. Do mesmo modo, o jornalista de ciência ou estudante de jornalismo poderia freqüentar um laboratório e observar o dia a dia dos pesquisadores.“

Assim disse o neurocientista e professor da UFRJ  Roberto Lent, em 14 de setembro, na mesa Educação e Divulgação Científica do Simpósio “Ciência, Tecnologia e Inovação: Visões da Jovem Academia”, organizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC). A experiência de Lent com a pesquisa e divulgação da ciência traz sempre um frescor no meio de algum ranço existente entre cientistas concentrados em seus projetos, papers e afazeres burocráticos, avessos ao trabalho jornalístico. Do outro lado, há jornalistas apressados para cumprir suas pautas. Concordo totalmente com a proposta dele.

Na minha graduação em jornalismo, fiz estágio em um programa de jornalismo científico e cultural, e estive em laboratórios de aulas e pesquisa. A lembrança mais marcante foi o acompanhamento de rotinas simples do laboratório gerenciado por Cristovam W.P. Diniz, neurocientista e professor da Universidade Federal do Pará(UFPA). Ali também assisti a alguns seminários ministrados pelos estudantes de biomedicina – entre eles, estava o amigo Wallace Leal, hoje pesquisador e professor da UFPA. Diniz foi um grande incentivador do meu interesse na divulgação científica naquele início dos anos 90.

Como jornalista, desenvolvi muitas pautas em laboratórios e escritórios de pesquisa. Bruno Latour e Steve Woolgar , no livro “A Vida em Laboratório”, dizem que se não tivéssemos a menor noção do que é a pesquisa científica, e adotássemos a versão dos cientistas, iríamos aprender apenas a “macaquear” o chefe do laboratório. E creio que isto vale muito para o jornalista em qualquer área de atuação ou especialização.

em busca de informações sobre outras tribos/Foto: Maria Lúcia Srur

 

A partir de julho deste ano, voltei à prática de visitante de laboratório (seria um hobby nerd?). Durante 15 dias, ministrei aulas no curso de especialização em jornalismo científico na Universidade Federal do Oeste do Pará(Ufopa). Uma das nossas atividades foi conhecer um campo de pesquisa arqueológica, recém aberto no terreno da universidade. Em um sábado, estávamos lá, sob sol quente, a interrogar a arqueóloga Denise Gomes e equipe. Foi muito bom ver os alunos ativos na entrevista coletiva. E saí dali com vontade de estudar arqueologia.

Em agosto, levei um grupo de alunos de graduação em jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro(UFRRJ) para um programa mais “radical”. Conhecemo o laboratório de anatomia animal do Instituto de Veterinária da UFRRJ. Os primeiros momentos foram de impacto e nojo gerados pelo cheiro e pelo visual. Nenhum dos oito alunos havia tido uma experiência como aquela, o que motivou diversas perguntas ao professor Luciano Alonso.  Os alunos participam de um projeto de jornalismo científico que iniciei este semestre na UFRRJ.

Acredito que este tipo de jogo entre estudantes, jornalistas e pesquisadores de outras áreas pode ser muito proveitoso para todos. É por isso que continuarei a incentivar ações e vivências como estas que compartilhei aqui.

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Por que os políticos fazem plástica antes da eleição

15/07/2010

Se você pensou: “eles querem ter uma cara mais agradável para atrair eleitores que não se preocupam em saber das promessas ou currículo”,  acertou! Essa também é a ideia que Fernando Reinach, biólogo, defende em texto (com mesmo título do post) do livro A longa marcha dos grilos canibais”, uma coletânea de crônicas – do mesmo autor – sobre ambiente e ciência.

A explicação é que o nosso cérebro foi habilitado para avaliar membros da nossa espécie com os quais nos comunicamos diretamente. Então, quando temos de analisar estranhos, a situação fica complexa. “Selecionar um líder entre os candidatos com os quais nunca interagimos é uma novidade para o cérebro humano, e não é tarefa que ele, mesmo educado, faça com facilidade. Se puder escolher, nosso cérebro prefere utilizar poucas informações obtidas em interações diretas” […] Quando forçados a decidir com base em informações indiretas, os mecanismos utilizados pelo cérebro são primitivos e irracionais.”, diz Reinach.

Pensando nisso, dá pra listar duas atitudes comuns de candidatos em campanha, usadas para reduzir o estranhamento dos eleitores: as cirurgias plásticas ou reconstrução da imagem física para ficarem mais bonitos e o “corpo a corpo” nas comunidades e grupos, para dar aquele ar de que são gente como a gente.

Fernando Reinach faz referências a pesquisas científicas que evidenciam empates entre a escolha de líderes, tanto de forma racional como “irracional”.  Em testes, fotos de candidatos vitoriosos e derrotados em eleições foram submetidas a apreciação de pessoas que não os conheciam. Estas deveriam dizer, apenas por meio das fotos dos políticos, se eles pareciam competentes ou incompetentes. Os resultados mostraram uma relação de 70% de acertos entre “os que pareciam, competentes” e os que haviam sido vitoriosos nas votações reais, ditas racionais.

Claro que temos outros pontos para orientar o nosso voto. Mas sei que antes de tudo, o  cérebro vai tentar nos inclinar para o candidato que parece mais familiar e atraente fisicamente.  Sei lá, acho que sempre vou desconfiar dos bonitinhos agora.

Obs:  Recomendo ler o livro. Algumas crônicas podem ser lidas aqui (clica)


Craft “científico”

01/05/2010

Talvez você ache esse tipo de trabalho horroroso. E há dois motivos para esta suposição: muita gente não gosta de imagens científicas e outro tanto detesta artesanato (craft). Mas eu acho  sensacional*, exatamente porque é o encontro do livro de ciências com as linhas coloridas e as contas. Eu gosto de tudo isso.

by CraftyHedgehogEssa rã dissecada em tricô é obra de uma estudante de história, que usa o apelido de Crafty Hedgehog.

by Laura CesariEm colares como este, a artista Laura Cesari tenta reproduzir o universo. É o que ela diz aqui.

E aí temos um neurônio bordado por alguém que se autodenomina Voracius Brain. Eu conheço várias pessoas que adorariam ganhar esse mimo.

A fonte desses achados foi o site Craftzine.

*Eu, @sibelefausto e @AninhaArantes  pensamos que seria bacana oferecer uma oficina de trabalhos manuais em um encontro de cientistas brasileiros.  O problema é a falta de coragem de fazer uma proposta como essa para os cientistas. 🙂


Qual é o cheiro do mundo para você?

14/10/2009

O post abaixo provocou alvoroço nos amantes de comida cheirosa e saborosa! É interessante perceber como cheiros ficam presentes e invocam imagens, e imagens podem lembrar perfumes: alfazema lembra sempre a minha bisavó Antonia, cheiro de farinha láctea traz recordações da infância, uma foto da Lapa, bairro do Rio de Janeiro, me lembra cheiro de urina… Afinal, o mundo é um complexo de cheiros.  E talvez você já tenha percebido que além de diversas visões de mundo,  as pessoas também cheiram o mundo de maneira diferente.  Há algumas explicações sobre propriedades do olfato na matéria “Os mistérios do cheiro, escrita pela Maria Guimarães para a revista Pesquisa. Boa dica dada por ela em comentário do texto sobre o pato.


Cartografia em Borges

07/10/2009

Dia desses, ao trocar ideias com Marise, lembrei deste texto publicado por Jorge Luis Borges no livro “História Universal da Infâmia”, que eu acredito servir de metáfora para todas as nossas tentativas de buscar explicações perfeitas para qualquer coisa. Transcrevo tal como na 3ª edição(1986):

DO RIGOR NA CIÊNCIA

…Naquele Império, a Arte da Cartografia atingiu uma tal Perfeição que o Mapa duma só Província ocupava toda uma Cidade, e o Mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o Tamanho do Império e coincidia ponto a ponto com ele. Menos Apegadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse extenso Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste subsistem despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Em todo o País não resta uma outra relíquia das Disciplinas Geográficas.            (Suarez Miranda: Viagens de Varões Prudentes, livro quarto, capXIV, 1658)


Anticiência na web: dá para controlar isso?

07/10/2009

A palestra sobre anticiência do professor e físico Leandro Tessler, no II EWCLiPo, me incomodou um pouco. Não pelo tema da apresentação, mas sim pelas questões sobre hierarquia científica na web sugeridas. Por acaso, este assunto tem tido minha atenção ultimamente. Como não havia tempo para debate, refleti um pouco mais sobre a propostas do professor. [E estou interessada em mergulhar nessa análise em outro ambiente].

Ele definiu a anticiência como “ideias malucas com roupagem científica”, ou seja, todo conhecimento contrário à ciência ou que não se baseia em  métodos  de investigação cientifica. Entram nessa categoria, por exemplo, o criacionismo, a astrologia e as terapias alternativas, como a homeopatia. As falsas ciências fazem parte do menu diário dos meios de comunicação de massa e são vistas como verdadeiras por muita gente. Tessler vê a ampliação desse problema na web, na medida em que há uma liberdade na produção de informações. Sem dúvida, a possibilidade da participação dos internautas na construção de comunidades temáticas, blogs e sites pessoais aumentou o número de informações sobre diversos temas, até os abomináveis.

A diversidade do público, a formação de subculturas e a ausência de uma hierarquia foram apontadas pelo professor  como as características da rede, que são favoráveis à difusão e alimentação da anticiência. E foi aí que eu me mexi na cadeira: hierarquia=poder. Franzi a testa. Leandro acredita na necessidade de criar uma auto-organização na divulgação de informações científicas na rede. “Como vamos fazer isso?”, perguntou à plateia e levantou possibilidades, entre elas, criar um selo de qualidade e fortalecer a rede de blogueiros cientistas. Disse também que cientistas, jornalistas e blogueiros de ciência devem pensar na autoridade, na hierarquia de publicação para combater as informações pseudocientíficas na web.

Respeito as idéias do professor Leandro Tessler, mas vejo uma contradição nelas: por um lado, é boa a expressão livre, mas depende de quem ou do que se fala? Ainda não há como controlar a pulverização de opiniões e temáticas, nem direcionar as vontades ou crenças dos leitores. E tenho medo que haja um dia. Fazer uma caça aos demônios na web, como alguém sugeriu no Ewclipo, seria improdutivo. Penso que a qualidade (autoridade) de divulgação sobre um determinado tema não se cria com um selo no blog, um currículo certificado, mas com prática adequada. O combate à proliferação de “ideias malucas” pode ser feito com a produção de informação acessível sobre o que é importante e até sobre a falta de fundamentação de certos pensamentos. E é indispensável a interação com os leitores, a aproximação que a internet permite. Não é simples na web, como não é simples no cara a cara, em uma sala de aula ou em uma palestra. É um enorme trabalho para quem deseja se empenhar nele, seja jornalista, cientista, professor ou amante da ciência. Sem carimbos e selos, apenas com conversa equilibradas com os leitores/interagentes. Enfim, seria bom ampliar o debate sobre a divulgação científica na internet e incluir a participação do público nessa história.

= Sobre pseudociência e mídia, recomendo a leitura de Carl Sagan:  O mundo assombrado pelos demônios. A ciência vista como uma vela no escuro.

= Sobre envolvimento do público em produções diversas, recomendo a leitura de Henry Jenkins: A  cultura da convergência.


Ciência, jornalismo e paixões

29/09/2009

“Jamais se case com um pesquisador. Ou vai passar os fins de semana sozinha.” – aconselhou-me, um dia, o Manoel, amigo paraense. Ele era pesquisador de biomedicina e eu estudante de jornalismo na UFPa. Não esqueci disso. Mas também não casei com um pesquisador. Neste fim de semana, lembrei dele e dos amigos que dormiam em laboratórios na UFPa para não perderem o experimento.  Queria escrever para eles e dizer que passei o sábado e o domingo com vários cientistas e estudantes! Fui para o EWCLiPo (Encontro de blogueiros de ciências) conversar com eles sobre comunicação, blogs, ciência e educação em Arraial do Cabo-RJ, cidade de praias lindas.

Fiquei feliz com o convite da organização, mas um pouco receosa [Pensei até em reler o Bruno Latour em “Ciência em ação. Como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora”]. Explico: sempre estive em encontros de jornalistas e pesquisadores de comunicação. Estes às vezes são belicosos. Mas como sou muito otimista quanto à relação jornalista e cientista, me tranquilizei. Além disso, havia colegas jornalistas na programação: o Bernardo Esteves, a Lacy e a Maria Guimarães.

A paixão foi o mote da palestra da Maria. Contou-nos por que, quase doutora em biologia, abandonou a pesquisa acadêmica e foi fazer jornalismo. Maria acredita que é preciso encantar-se pelo objeto de pesquisa ou pela profissão. Ela, por exemplo, enamorou-se primeiro de um roedorzinho, que estudou durante anos,  e, depois, veio a paixão pela reportagem. Concordo com ela. Não há como gostar de fazer algo que não nos inspire ou pareça necessário para alguma coisa, até para sobrevivência. Sem tesão não há solução, dizia o escritor Roberto Freire.

E  a Maria acertou em cheio. Meu amigo Manoel também. No encontro de blogueiros de ciência, liguei ambas as percepções. Somente um apaixonado pelo que faz se fecha em uma sala para discutir assuntos do seu interesse num fim de semana de sol.  E a sala está a dois passos do mar com praia de areia branquinha. E não é misantropia, porque a sala estava cheia. Não sei o que disseram os pares românticos do pessoal que estava lá. Mas os pesquisadores blogueiros pareciam bem animados em saber mais sobre blogs e comunicação. Uma atividade nova para muitos deles.

Há outros pontos do evento a serem abordados em posts específicos. Quero destacar algumas informações que ouvi.  Um relatório com detalhes foi postado pelo Mauro Rebelo, um dos organizadores do encontro. Mas eu me dei folga do texto jornalístico tradicional e preferi me aproximar do jornalismo de imersão.