Um ônibus pelo Recôncavo

Há dois meses e meio, vivo em Salvador-BA e o que mais tenho feito é ouvir histórias. É o melhor a se fazer quando a gente é novo em um lugar.  Interessante é capturar as conversas das pessoas e entrevistar nativos sem que eles percebam. Tenho ouvido diálogos ótimos que repito em sala de aula, quase sempre como exemplos fortuitos para o assunto do dia.

O ônibus que tomo para ir à Universidade duas vezes por semana é a fonte de muitas tiradas engraçadas e de um pouco da cultura cotidiana do recôncavo.  De Salvador a Cachoeira são duas horas, mas é a partir da metade do caminho, entre Santo Amaro da Purificação e Cachoeira , que o ambiente fica rico em informação da vida alheia.  Os passageiros que sobem lá são mais desinibidos.

Mas já me aborreci com o pessoal que adora compartilhar em alto volume suas músicas prediletas no celular. Pela manhã, são as senhoras fãs de música gospel. No fim da tarde, são os rapazes amantes de tudo, desde  “good times” até forró  universitário.  Eu não mereço! Outro dia, também, dois professores da universidade conversaram sobre toda a parafernália da vida universitária durante as duas horas de viagem.  Naquele momento, preferi até ouvir “good times”  no celular – ou não escutar nada.

O vício de prestar atenção nas conversas de ônibus começou quando uma senhora, professora de pré-escola na zona rural de Gov. Mangabeira, sentou ao meu lado e contou durante uma hora e meia como é o seu trabalho em uma escola sem livros e as estratégias que os professores fazem para que as crianças desejem ir às aulas.  Jovenália, a “pró” [como chamam para professores],  falava pelos cotovelos.  Eu gostei de ouvi-la.

Houve um dia em que o cobrador do ônibus discutiu calmamente com uma passageira e disse que “passageiro quase sempre quer se dar bem em cima do cobrador, como se este fosse o dono do ônibus”.  E a mulher se calou.

Em um fim de tarde, uma moça da poltrona da frente falava ao celular com alguma amiga e pedia a ela que “por favor, não me aborreça. Eu acabei de fazer uma macumba poderosa. Estou de alma pura. Depois a gente conversa”. Deu vontade de rir.

Vi também um trio feminino discutindo sobre a melhor época do ano para se ter filhos. Uma delas dizia “ô, mulher, emprenha logo. Para de tomar remédio, que besteira é essa!? Se você emprenhar agora vai ser melhor.” Esse papo foi às 7 e meia.

Enquanto esperávamos o ônibus na rodoviária, uma senhorinha me ensinou como produzir sabão caseiro e usá-lo para afugentar moscas. Essa mulher, de  60 anos, me deu sua visão sobre economia no recôncavo. “Em Santo Amaro, tudo que eu colocar para vender, eu vendo. Pode ser cana descascada ou sabão caseiro. Mas em Cachoeira e São Félix ninguém compra nada.”

Fiz uma coleção aleatória de histórias nesses  dois meses de indas e vindas.  Vou sentir falta, quando não viajar mais por essa rodovia.

***

Resolvi “legendar” essas falas hoje em homenagem a @Be_neviani, de quem eu lembrei em várias viagens.  Em alguns momentos, eu quis não ouvir, como ela. E em outras imaginei que ela ficaria tão curiosa com as cenas, que diria “tem legendas? você sabe que eu não posso ouvir”.  Feliz Aniversário, Bê!

Esse post faz parte do Prêmio Be_neviani – porque não basta twittar, tem que dispersar. Leia aqui mais sobre essa campanha criada pela @sibelefausto.

14 respostas para Um ônibus pelo Recôncavo

  1. Cássia disse:

    É a cara do baiano, do nordestino!
    Muita tagarelice, e entrosamento, em uma mera viagem de ônibus.
    Com o advento das modernidades, por vezes uma chatice mesmo.
    Matei saudades com essa crônica.
    Valeu, Ale!

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Alessandra Carvalho, Bê Neviani. Bê Neviani said: RT @alesscar: @sibelafausto para @Be_neviani Dispersando Um ônibus pelo Recôncavo http://bit.ly/bKFcnw […]

  3. Hermes disse:

    E Bahia…é fogo! Eles falam muito. Agora pede uma informação sobre uma rua ou loja ou qualquer outra coisa da cidade…Vais se dá mal. Pois eles falam tanto que sempre dão a informação errada. Quando peço informação a uma pessoa aí, eu sempre confirmo com mais três ou quatro pessoas depois… Essa historia de macumba, banho disso ou daquilo voce vai ouvir muito, inclusive no meio universitário… é uma cultura muito forte…não vejo, até o momento, igual no nordeste, nem em outro lugar no país. Eu nunca me acostumei com isso e sempre estranho quando estou aí.

    • Ei, Hermes! Então, vc ia detestar o Pará. Pq lá na minha terra, o povo fala muito também. E fala alto!! Banhos de ervas e de purificação são comuns entre os mais velhos paraenses. Ah, e quando vc for ao Ver o Peso, não esquece de dar uma voltinha nas barracas de poções mágicas..hahaha. E as comidas? na Bahia e no Pará, tem beiju, maniçoba, vatapá, caruru…. Ou seja, me sinto quase em casa. Apesar de todo esse discurso, tu deves amar as praias baianas…rs.

  4. Marise Rocha Morbach disse:

    Alessandra, imaginei que seria assim se fosse morar ai, adorei; tomara que fiques ai pois vou te visitar uma hora dessas, beijos, Marise

  5. disse:

    Alessandra,obrigada,querida pelas sua participação no #premioveneviani e por esse post tão gentil!Você é sensacional e notou a minha pergunta constante:tem legenda????:P

  6. Carol M. disse:

    hahahahah
    nossa, adorei essa da macumba xD
    ‘me sinto mais leve’… rs

    quase não pego onibus,moro do lado da faculdade. mas não consigo gostar dessas conversas, eu sempre fico autistando… ai ninguem fala comigo ^^

    bjs

  7. hanny disse:

    haja ouvido pra tanta história! ahahahaha
    uma vez li que os escritores se baseiam em histórias assim, de canto de mesa ou de banco de bus (nesse caso).
    começa a escrever tudo pelo caminho =)

    um amigo diz que vai fazer um adesivo e iniciar uma campanha pelo fone de ouvido dentro do ônibus rs

    bjão

  8. Celina disse:

    Nossa, eu ouço quase a mesma coisa, quase todas as semanas. E como se não bastasse Salvador-Cruz, Cruz-Salavador, vou e volto de Cachoeira de Topic. As conversas às vezes são o máximo, me divirto horrores. O pior pra mim ainda é aturar as músicas de celular! Se for pagode e arrocha, nem se fala!

  9. Nayá disse:

    Ri muito com essas histórias, já ouvi um monte delas. Vc precisa ver na feirinha lá perto de casa, aí sim vc ouviria belíssmias histórias.(–‘). Então, queria te desejar sucesso na nova caminhada(nem tão nova assim né? Afinal, está em casa). Que tenha alunos tão maravilhosos quanto nós, Rs. Senti sua falta na terça, e só depois vi seu e-mail. Então, assim, fica na lembrança né? Lembre da meu estranho riso e seja feliz, Rs. Beeijo enorme, Deus esteja contigo.

  10. Sandra disse:

    Oi Ale, que delícia te ler e “viajar” contigo nesse ônibus. Realmente, nada a desejar em relação ao modo de vida em Belém, exceto talvez pelo fato de que ouves tudo sentada e não em pé, pq Belém está cada dia pior neste quesito……
    Bom saber de teus caminhos.
    Beijos,
    Sandra.

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