How stuff works: o pato no tucupi

patonotucupi

É tempo de pato no tucupi em Belém, Pará! Típico da culinária regional, o prato é preparado para a comemoração católica pelo dia da padroeira da capital, todo segundo domingo de outubro. Mas não importa a crença ou descrença, a gente acaba sendo seduzida pelos cheiros e sabores das iguarias.

O pato não é comida corriqueira. O preparo é demorado e requer paciência.  Aprendi o ritual ao observar mamãe fazê-lo para nossos almoços de aniversário e festas de fim de ano em Santarém. Para começar, era preciso garantir um pato gordo. Semanas antes, ela encomendava a ave a algum vizinho criador – de quintal mesmo. O bicho era entregue vivo ou morto. Na véspera da “festa”, limpo e  em pedaços, o pato era banhado no vinha d’alhos. No dia seguinte, bem cedo, íamos à feira para comprar os outros ingredientes: tucupi, jambu e cheiro verde frescos. Lá tem feira a semana inteira.

O tucupi é o sumo da mandioca amarela, levemente fermentado. Escolhíamos sempre o menos azedo da banca de confiança que vendia produto honesto sem água em demasia ou corante artificial. Eram dois litros de tucupi “do bom” para um pato médio.

Da verdureira, levávamos dois maços de cheiro verde (alfavaca, cebolinha, coentro e chicória-do-Pará) e dois maços bem verdes de jambu, uma folhagem que dá um tremor engraçado na língua. Os comensais de primeira viagem divertem-se ou assustam-se com essa característica do jambu.

Já em casa, mamãe cozinhava rapidamente o pato na panela de pressão, só para amaciar. Em outra panela, fervia o tucupi com alho amassado, o cheiro verde, cebola fatiada, duas pimentas comari inteiras e pimentas de cheiro.

Depois, ainda era preciso assar o pato. E o cheiro espalhava pela casa… enquanto o jambu cozinhava em água e sal até os talos ficarem macios.

Assados, os pedaços de pato eram mergulhados com cuidado na panela do tucupi temperado. Fervia mais um pouquinho, juntava as folhas do jambu e mais cheiro verde. O que é a lembrança do cheiro?!!…Tampava a panela. Desligava o fogo. Deixava lá por uma meia hora ou mais para apurar o sabor. Servia com arroz branco……………  Quem comeu, sabe que vale cada minuto do tempo de preparo.

Felizes lembranças gastronômicas!

[ao  Mario Camarão, querido amigo, que ama tucupi com qualquer coisa]

18 respostas para How stuff works: o pato no tucupi

  1. Miriam Salles disse:

    Alessandra,
    Fiquei com “água na boca” como dizia minha bisavó mineira!
    E com mais vontade ainda de poder rever o Pará!
    abço

  2. Alê,
    seu texto é cheio de cheiros, sabores e emoção. Engraçado como essas comidas típicas do Pará sempre remetem para histórias legais, de laços, né?
    Eu, lembrei da minha avó. Da minuciosa desenvoltura para misturar tucupi com “qualquer coisa” (lol). E foram tantas: tucupi com carnes vermelhas, brancas, amarelas…quase um laboratório gastronômico!
    Enfim, domingo, vou comer pato no tucupi, com molho de pimenta de cheiro. Nada como antes: Agora é um prato congelado para ir ao microondas, comprado num supermercado de Belém. Sem cheiro, sem cor, sem história…sem avó. :¨(

  3. Jorge Reis disse:

    Afe!
    Estive em Belem por um mês.
    Considero um pecado não ter ficado para o Cirio.
    Mais por tornar realidade essa foto do Pato no tucupi.
    Torna-la real significa me deixar envolver pelo clima único do Cirio de Nazaré, com todos os seus cheiros e sabores. Com todas as suas imagens e sons.
    Tudo o que tenho com Belém e com o Pará são laços afetivos. Laços que, como bem disse o Camarão (nao o do Tacacá, mas o amigo querido), são verdadeiro alimento.
    Feliz Cirio a todos.

  4. hanny disse:

    putz, ale!
    faz isso não… assim eu não resisto hehe
    a descrição do prato feita por você é de suspirar e encher o paladar de vontade.
    sou louca para experimentar o tucupi, o jambu e os muitos sabores do pará. ainda chego lá rs
    vou copiar o mário… seu texto está cheio de cheiros, sabores e emoção e isso torna tudo mais gostoso =)

    ahh! eu quero pato no tucupi agora!!! rsrs

  5. Carol M. disse:

    ISSO DEVE SER MUITO BOM!
    meudeus, fiquei com água na boca agora! ainda por cima não posso experimentar, cheio de temperos típicos que não se acha aqui no Rio….

  6. maria disse:

    mmmmmmmmmmmm… eu quero!
    nunca tive a felicidade de acompanhar as etapas e cheiros do preparo. algo que tem que ser remediado!!

  7. Lacy disse:

    Adoro o pato, o tucupi, o tacacá, o filhote, de preferência assado. E aceito o convite para visitar Santarém, que não conheço, mas sei que vou apreciar (hehehe!)
    Vamos perguntar à neurocientista de plantão como é que sentimos o cheiro na memória?

  8. maria disse:

    obaaaaaaaaaaaaa!!! alessandra, este ano não dá mas vou anotar o convite! algum dia desembarco lá.

    lacy, fiz uma matéria sobre cheiros uma vez. está aqui: http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=3741&bd=1&pg=1. se bem me lembro, os neurônios do olfato têm muitas ligações com partes do cérebro envolvidas na memória. tem um cheirinho da matéria no blogue, também: http://scienceblogs.com.br/cienciaeideias/2009/01/o-mundo-do-olfato.php

  9. E o tacacá?

    []s,

    Roberto Takata

    • Roberto, todo dia é dia de tacacá no Pará. A receita é muito simples. Pega esse tucupizão com jambu que sobrou do pato e mistura com mais tucupi temperado com ervas. alho e sal. Cozinha mais um maço de jambu. Descasca uns camaraões secos e deixa de molho numa água quente. Faz um mingau ralo de goma de tapioca fresca [amido da mandioca], apenas com água e sal. E agora é só servir – nessa ordem – em uma cuia ou cumbuca: uma concha de tucupi temperado, uma concha de goma, mais um pouco de tucupi, folhas de jambu e camarões. Molho de pimenta a gosto!

  10. Cássia disse:

    Gostei muito do pato no tucupi que degustamos no Sal Vita.
    E do que experimentei em Belém, quando lá estive.
    Mas, o prato regional preparado em casa tem seu toque especial.
    Tem gosto e requintes de afeto!😉

  11. kantega disse:

    Quanto tempo vc ficou em Vitória??

    Quantas vezes vc fez esse prato da culinária paraense pros amigos????

    Estou revoltado por ter que degustá-lo na tela do computador.

  12. jack disse:

    meu marido comprou 4kg de pato, para o proximo domingo, estou com dificuldade de achar TUCUPI para o pato, Onde encontro TUCUPI no RJ?????…. por favor..

  13. Mina disse:

    Nooooooosa, eu amo pato no tucupi! Que saudade! Mas eu não sabia que era ligado a um evento religioso…

  14. Hermes disse:

    Jambu na lingua dos outros é refresco…

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