Gramática do “salto alto”

16/10/2009
Caco Galhardo

Caco Galhardo


Qual é o cheiro do mundo para você?

14/10/2009

O post abaixo provocou alvoroço nos amantes de comida cheirosa e saborosa! É interessante perceber como cheiros ficam presentes e invocam imagens, e imagens podem lembrar perfumes: alfazema lembra sempre a minha bisavó Antonia, cheiro de farinha láctea traz recordações da infância, uma foto da Lapa, bairro do Rio de Janeiro, me lembra cheiro de urina… Afinal, o mundo é um complexo de cheiros.  E talvez você já tenha percebido que além de diversas visões de mundo,  as pessoas também cheiram o mundo de maneira diferente.  Há algumas explicações sobre propriedades do olfato na matéria “Os mistérios do cheiro, escrita pela Maria Guimarães para a revista Pesquisa. Boa dica dada por ela em comentário do texto sobre o pato.


How stuff works: o pato no tucupi

09/10/2009

patonotucupi

É tempo de pato no tucupi em Belém, Pará! Típico da culinária regional, o prato é preparado para a comemoração católica pelo dia da padroeira da capital, todo segundo domingo de outubro. Mas não importa a crença ou descrença, a gente acaba sendo seduzida pelos cheiros e sabores das iguarias.

O pato não é comida corriqueira. O preparo é demorado e requer paciência.  Aprendi o ritual ao observar mamãe fazê-lo para nossos almoços de aniversário e festas de fim de ano em Santarém. Para começar, era preciso garantir um pato gordo. Semanas antes, ela encomendava a ave a algum vizinho criador – de quintal mesmo. O bicho era entregue vivo ou morto. Na véspera da “festa”, limpo e  em pedaços, o pato era banhado no vinha d’alhos. No dia seguinte, bem cedo, íamos à feira para comprar os outros ingredientes: tucupi, jambu e cheiro verde frescos. Lá tem feira a semana inteira.

O tucupi é o sumo da mandioca amarela, levemente fermentado. Escolhíamos sempre o menos azedo da banca de confiança que vendia produto honesto sem água em demasia ou corante artificial. Eram dois litros de tucupi “do bom” para um pato médio.

Da verdureira, levávamos dois maços de cheiro verde (alfavaca, cebolinha, coentro e chicória-do-Pará) e dois maços bem verdes de jambu, uma folhagem que dá um tremor engraçado na língua. Os comensais de primeira viagem divertem-se ou assustam-se com essa característica do jambu.

Já em casa, mamãe cozinhava rapidamente o pato na panela de pressão, só para amaciar. Em outra panela, fervia o tucupi com alho amassado, o cheiro verde, cebola fatiada, duas pimentas comari inteiras e pimentas de cheiro.

Depois, ainda era preciso assar o pato. E o cheiro espalhava pela casa… enquanto o jambu cozinhava em água e sal até os talos ficarem macios.

Assados, os pedaços de pato eram mergulhados com cuidado na panela do tucupi temperado. Fervia mais um pouquinho, juntava as folhas do jambu e mais cheiro verde. O que é a lembrança do cheiro?!!…Tampava a panela. Desligava o fogo. Deixava lá por uma meia hora ou mais para apurar o sabor. Servia com arroz branco……………  Quem comeu, sabe que vale cada minuto do tempo de preparo.

Felizes lembranças gastronômicas!

[ao  Mario Camarão, querido amigo, que ama tucupi com qualquer coisa]


Cartografia em Borges

07/10/2009

Dia desses, ao trocar ideias com Marise, lembrei deste texto publicado por Jorge Luis Borges no livro “História Universal da Infâmia”, que eu acredito servir de metáfora para todas as nossas tentativas de buscar explicações perfeitas para qualquer coisa. Transcrevo tal como na 3ª edição(1986):

DO RIGOR NA CIÊNCIA

…Naquele Império, a Arte da Cartografia atingiu uma tal Perfeição que o Mapa duma só Província ocupava toda uma Cidade, e o Mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o Tamanho do Império e coincidia ponto a ponto com ele. Menos Apegadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse extenso Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste subsistem despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Em todo o País não resta uma outra relíquia das Disciplinas Geográficas.            (Suarez Miranda: Viagens de Varões Prudentes, livro quarto, capXIV, 1658)


Anticiência na web: dá para controlar isso?

07/10/2009

A palestra sobre anticiência do professor e físico Leandro Tessler, no II EWCLiPo, me incomodou um pouco. Não pelo tema da apresentação, mas sim pelas questões sobre hierarquia científica na web sugeridas. Por acaso, este assunto tem tido minha atenção ultimamente. Como não havia tempo para debate, refleti um pouco mais sobre a propostas do professor. [E estou interessada em mergulhar nessa análise em outro ambiente].

Ele definiu a anticiência como “ideias malucas com roupagem científica”, ou seja, todo conhecimento contrário à ciência ou que não se baseia em  métodos  de investigação cientifica. Entram nessa categoria, por exemplo, o criacionismo, a astrologia e as terapias alternativas, como a homeopatia. As falsas ciências fazem parte do menu diário dos meios de comunicação de massa e são vistas como verdadeiras por muita gente. Tessler vê a ampliação desse problema na web, na medida em que há uma liberdade na produção de informações. Sem dúvida, a possibilidade da participação dos internautas na construção de comunidades temáticas, blogs e sites pessoais aumentou o número de informações sobre diversos temas, até os abomináveis.

A diversidade do público, a formação de subculturas e a ausência de uma hierarquia foram apontadas pelo professor  como as características da rede, que são favoráveis à difusão e alimentação da anticiência. E foi aí que eu me mexi na cadeira: hierarquia=poder. Franzi a testa. Leandro acredita na necessidade de criar uma auto-organização na divulgação de informações científicas na rede. “Como vamos fazer isso?”, perguntou à plateia e levantou possibilidades, entre elas, criar um selo de qualidade e fortalecer a rede de blogueiros cientistas. Disse também que cientistas, jornalistas e blogueiros de ciência devem pensar na autoridade, na hierarquia de publicação para combater as informações pseudocientíficas na web.

Respeito as idéias do professor Leandro Tessler, mas vejo uma contradição nelas: por um lado, é boa a expressão livre, mas depende de quem ou do que se fala? Ainda não há como controlar a pulverização de opiniões e temáticas, nem direcionar as vontades ou crenças dos leitores. E tenho medo que haja um dia. Fazer uma caça aos demônios na web, como alguém sugeriu no Ewclipo, seria improdutivo. Penso que a qualidade (autoridade) de divulgação sobre um determinado tema não se cria com um selo no blog, um currículo certificado, mas com prática adequada. O combate à proliferação de “ideias malucas” pode ser feito com a produção de informação acessível sobre o que é importante e até sobre a falta de fundamentação de certos pensamentos. E é indispensável a interação com os leitores, a aproximação que a internet permite. Não é simples na web, como não é simples no cara a cara, em uma sala de aula ou em uma palestra. É um enorme trabalho para quem deseja se empenhar nele, seja jornalista, cientista, professor ou amante da ciência. Sem carimbos e selos, apenas com conversa equilibradas com os leitores/interagentes. Enfim, seria bom ampliar o debate sobre a divulgação científica na internet e incluir a participação do público nessa história.

= Sobre pseudociência e mídia, recomendo a leitura de Carl Sagan:  O mundo assombrado pelos demônios. A ciência vista como uma vela no escuro.

= Sobre envolvimento do público em produções diversas, recomendo a leitura de Henry Jenkins: A  cultura da convergência.