O jogo da mistificação democrática

Finalizei a leitura do  “Usos sociais da ciência” , de Pierre Bourdieu. É um livro curto, resultado de uma conferência realizada em 1997, sobre o capital científico e as estratégias de campo.  Não é gostoso de ler, empaquei várias vezes. Mas foi importante  para clarear  ideias de pesquisa e cutucar outras.  Além do foco na atuação dos cientistas, sobram críticas para os jornalistas:

“[…] os eruditos aparentes da opinião ou das aparências, isto é, os pesquisadores e os analistas das pesquisas, essas pessoas que nos fazem acreditar que o povo fala, que o povo não cessa de falar sobre todos os temas importantes. Mas o que jamais é colocado em questão é a produção dos problemas que são postos para o povo. Ora, esses problemas são engendrados segundo o processo circular de circulação entre pesquisadores, jornalistas e politicólogos […].  Nem todo mundo tem os instrumentos de produção da opinião pessoal. A opinião pessoal é um luxo. Há pessoas, no mundo social, que  ‘são faladas’, por quem se falam, porque elas não falam, para as quais se produzem problemas porque elas não os produzem. E, hoje, chega-se mesmo, no grande jogo da mistificação democrática, até dar oportunidade para que respondam problemas que não seriam capazes de produzir. E se faz, então, que produzam falsas respostas que fazem esquecer que elas não têm questões.” (Bourdieu, 2004: 83-84)

Não quis pensar em marketing científico, mas não pude ignorar  as aulas de pesquisa em comunicação e a necessidade de se ter/formular uma questão-problema importante para a sociedade e/ou para a ciência. Como a dificuldade de percepção leva o estudante a parir problemas enviesados! Lembrei das enquetes jornalísticas feitas nas ruas sobre assuntos de que as pessoas jamais ouviram falar.  Também pensei nas análises tortas das pesquisas de opinião que a gente vê… Daí veio uma leve dor de cabeça,  boa para “esquentar” os neurônios e renovar objetivos profissionais.

2 respostas para O jogo da mistificação democrática

  1. cordovil disse:

    Belíssimo post, Alessandra. Parabéns! Eu de fato não conhecia este opúsculo do Bourdieu. Obrigado por divulgar. Muito pertinentes suas observações também. Como você sabe, há um texto clássico de Bourdieu sobre a opinião pública. Trata-se de “A opinião pública não existe”. É bom para colocar a minhoca na cabeça de nossos alunos. Parabens pelo blog! Aos poucos, surgirá massa crítica sobre a necessidade de reformular o jornalismo científico, para inscrevê-lo numa sociedade de risco, à beira do colapso.

  2. Hermes disse:

    esquentar neuronio…basta café. Renovar objetivos profissionais bastar mudar de atitude.

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