Ciência, jornalismo e paixões

29/09/2009

“Jamais se case com um pesquisador. Ou vai passar os fins de semana sozinha.” – aconselhou-me, um dia, o Manoel, amigo paraense. Ele era pesquisador de biomedicina e eu estudante de jornalismo na UFPa. Não esqueci disso. Mas também não casei com um pesquisador. Neste fim de semana, lembrei dele e dos amigos que dormiam em laboratórios na UFPa para não perderem o experimento.  Queria escrever para eles e dizer que passei o sábado e o domingo com vários cientistas e estudantes! Fui para o EWCLiPo (Encontro de blogueiros de ciências) conversar com eles sobre comunicação, blogs, ciência e educação em Arraial do Cabo-RJ, cidade de praias lindas.

Fiquei feliz com o convite da organização, mas um pouco receosa [Pensei até em reler o Bruno Latour em “Ciência em ação. Como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora”]. Explico: sempre estive em encontros de jornalistas e pesquisadores de comunicação. Estes às vezes são belicosos. Mas como sou muito otimista quanto à relação jornalista e cientista, me tranquilizei. Além disso, havia colegas jornalistas na programação: o Bernardo Esteves, a Lacy e a Maria Guimarães.

A paixão foi o mote da palestra da Maria. Contou-nos por que, quase doutora em biologia, abandonou a pesquisa acadêmica e foi fazer jornalismo. Maria acredita que é preciso encantar-se pelo objeto de pesquisa ou pela profissão. Ela, por exemplo, enamorou-se primeiro de um roedorzinho, que estudou durante anos,  e, depois, veio a paixão pela reportagem. Concordo com ela. Não há como gostar de fazer algo que não nos inspire ou pareça necessário para alguma coisa, até para sobrevivência. Sem tesão não há solução, dizia o escritor Roberto Freire.

E  a Maria acertou em cheio. Meu amigo Manoel também. No encontro de blogueiros de ciência, liguei ambas as percepções. Somente um apaixonado pelo que faz se fecha em uma sala para discutir assuntos do seu interesse num fim de semana de sol.  E a sala está a dois passos do mar com praia de areia branquinha. E não é misantropia, porque a sala estava cheia. Não sei o que disseram os pares românticos do pessoal que estava lá. Mas os pesquisadores blogueiros pareciam bem animados em saber mais sobre blogs e comunicação. Uma atividade nova para muitos deles.

Há outros pontos do evento a serem abordados em posts específicos. Quero destacar algumas informações que ouvi.  Um relatório com detalhes foi postado pelo Mauro Rebelo, um dos organizadores do encontro. Mas eu me dei folga do texto jornalístico tradicional e preferi me aproximar do jornalismo de imersão.

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O jogo da mistificação democrática

24/09/2009

Finalizei a leitura do  “Usos sociais da ciência” , de Pierre Bourdieu. É um livro curto, resultado de uma conferência realizada em 1997, sobre o capital científico e as estratégias de campo.  Não é gostoso de ler, empaquei várias vezes. Mas foi importante  para clarear  ideias de pesquisa e cutucar outras.  Além do foco na atuação dos cientistas, sobram críticas para os jornalistas:

“[…] os eruditos aparentes da opinião ou das aparências, isto é, os pesquisadores e os analistas das pesquisas, essas pessoas que nos fazem acreditar que o povo fala, que o povo não cessa de falar sobre todos os temas importantes. Mas o que jamais é colocado em questão é a produção dos problemas que são postos para o povo. Ora, esses problemas são engendrados segundo o processo circular de circulação entre pesquisadores, jornalistas e politicólogos […].  Nem todo mundo tem os instrumentos de produção da opinião pessoal. A opinião pessoal é um luxo. Há pessoas, no mundo social, que  ‘são faladas’, por quem se falam, porque elas não falam, para as quais se produzem problemas porque elas não os produzem. E, hoje, chega-se mesmo, no grande jogo da mistificação democrática, até dar oportunidade para que respondam problemas que não seriam capazes de produzir. E se faz, então, que produzam falsas respostas que fazem esquecer que elas não têm questões.” (Bourdieu, 2004: 83-84)

Não quis pensar em marketing científico, mas não pude ignorar  as aulas de pesquisa em comunicação e a necessidade de se ter/formular uma questão-problema importante para a sociedade e/ou para a ciência. Como a dificuldade de percepção leva o estudante a parir problemas enviesados! Lembrei das enquetes jornalísticas feitas nas ruas sobre assuntos de que as pessoas jamais ouviram falar.  Também pensei nas análises tortas das pesquisas de opinião que a gente vê… Daí veio uma leve dor de cabeça,  boa para “esquentar” os neurônios e renovar objetivos profissionais.


Tolices da evolução

17/09/2009

Angeli

Outro dia, fiz um comentário em um blog que visito com regularidade e, sem querer, provoquei a ira de outra visitante [professora, fiquei sabendo depois], que googleou meu nome. Ela disse que havia procurado meu currículo, mas não tinha encontrado e perguntava quem eu achava que era para falar o que falei.  Achei engraçada a curiosidade da mulher, mas não dei confiança. Era um comentário cotidiano em um blog de assuntos diversos.  Para que a pessoa queria saber do meu currículo? Mas aí lembrei que o dono do blog, jornalista e meu amigo, me chamou de “doutora” no comentário. Talvez isso tenha alimentado a fúria da moça.Vai saber…

Na semana passada, deparei-me com atitude semelhante. Uma outra pessoa  me gongou por uma opinião que dei sobre cibercultura, que não é minha área de estudo, mas sobre a qual leio um pouco e me arrisco a dizer algumas coisas.  Foi algo como “por que você fala desse tema que não conhece a fundo?”. [uau! E eu me seguro pra não falar bobagens de qualquer jeito]. Hoje, vi outra situação da mesma categoria. Mas, desta vez, não foi comigo.[Ufa!]  Para desbancar um comentarista inquisidor, uma criatura descreveu toda sua vida acadêmica na caixinha de  comentários de um blog.

Gente, o que está havendo?  Torço para que estas reações cafonas à maneira  “pesquisador do fim do século XIX” não levem a gente a ter que apresentar currículo na plataforma Lattes para poder comentar em certos blogs ou sobre determinados assuntos.  Se não, vamos  ter que evoluir tudo de novo. (rs).


Divulgação científica em blogs

09/09/2009

Este ano vou participar do II Encontro de blogs científicos em língua portuguesa, de 25 a 27 deste mês, em Arraial do Cabo-RJ.  No ano passado não consegui ir,  mas agora estarei lá para trocar ideias com pesquisadores e jornalistas.  Na mesa sobre “Quem deve divulgar a ciência?” (o jornalista e/ou ocientista), divido o tema com Suzana Herculano, neurocientista da UFRJ, conhecida dos brasileiros pelo quadro no Fantástico.  Vai ser um momento para constatar a boa convivência entre esses dois grupos e desfazer algum folclore negativo.

Folder com a programação: clique aqui e aqui

Informações, inscrições e outros: clique aqui.


Blogs e integração regional

08/09/2009

O pesquisador capixaba Fábio Malini faz um estudo sobre blogs da Amazônia, assunto da revista Época.  Eu li o texto da revista e tive  a impressão que informações foram suprimidas e outras exageradas.  Há mesmo  integração regional com o uso da web? O que será que os amazônidas dizem sobre isso?