Por mais textos eróticos

Há algumas semanas consegui terminar de ler o livro “Por que estudar a mídia?, de Roger Silverstone, adquirido há uns 2 anos. Não que fosse um desejo, eu-preciso-ler, mas porque me comprometi a terminar a leitura reiniciada em vários momentos. Já me sentia enjoada só de olhar pra ele.

O livro não tem grandes novidades sobre o tema, bem que desconfiei. O melhor capítulo é o Erotismo, de onde extraí a citação de Roland Barthes (do livro “O prazer do texto”). Achei interessante a analogia barthesiana, que me fez pensar em diversos pontos sobre leitura e análise de um texto.

O lugar mais erótico de um corpo não é onde o vestuário se entreabre? Na perversão (que é o domínio do prazer textual) não há “zonas erógenas”… é a intermitência, como disse muito bem a psicanálise, que é erótica; a intermitência da pele que cintila entre duas peças (as calças e o suéter), entre duas bordas(a camisa entreaberta, a luva e a manga); é essa cintilação que seduz, ou ainda: a encenação de um aparecimento-como-desaparecimento. (Barthes, 1976:9-10)

Essa leitura também me fez refletir sobre a dificuldade de me interessar por textos que encontro em profusão por aí. Eu já li muita porcaria, por gosto e por trabalho. Mas enchi e cansei. Não me falta vontade de ler coisas boas. E qual é o tipo de leitura que me seduz? Sou capaz de ler qualquer coisa, desde que seja erótica, na visão de Barthes. Desde um modo original de descrever uma receita culinária até um livro científico sobre o Caos. Obviamente, também não me falta autocrítica.

17 respostas para Por mais textos eróticos

  1. hanny disse:

    hmmm
    que texto erótico esse…
    no sentido barthesiano, claro! ahahahhaha
    sacanagem =)
    o título chamou atenção e a leitura foi, como sempre, muito prazerosa.
    tb me cabe um tanto de autocrítica.
    que venham mais mais textos eróticos!

    bjo

  2. Marco disse:

    Tens razão, tem merda demais por aí. E o pior é que tem gente que fica mandando suas reflexões pro mail da gente sobre as bostas que leu. Ao menos tem graça o endereço eletrônico do pensador quando consta escritofulano@…..
    É de matar. Mas quanto aos escritores de verdade, fico com os clássicos. A gente lê um monte de vezes e continua achando bom. Sobre o erotismo em páginas? Dos acadêmicos não sei, gosto mesmo é de Henry Miller.

  3. Henri disse:

    Curti muito seu blog, os temas dos textos e sua forma de escrever.
    Atualmente to lendo um monte de coisa, do desassossego do pessoa ao mia couto que foi uma recente e feliz descoberta.
    Comecei, ou seria recomecei (?) um blog com alguém faz um mes… pode ser que seja só mais um espaco mal usado em servidor… quem vai saber? tudo isso é tao pessoal e secreto como quantos minutos passamos escovando os dentes.
    Ahh é isso por agora.
    Beijo

  4. Por mais comentários acertados como esse…!

    \,,/

  5. Samuel Lima disse:

    Ale,

    Adorei o post. Esse sabor lascivo, provocante, sedutor, magnético que a gente encontra na boa prosa, mesmo num texto de curto fôlego como o seu… Passei o ano de 2008, de fevereiro até véspera do natal, relendo, a conta gotas, o “Grande Sertão: Veredas”, do Rosa.

    É uma prosa encantadora, que não te permite sair dela, que entra pelos “sete buracos da cabeça” e transita pelo universo do corpo, feito pororoca mística.

    Beijos, com saudades!

    Samuca

  6. ligialana disse:

    O texto de Silverstone não traz nada novo, ok, mas, ao mesmo tempo, organiza conceitos, questões e articula autores muito importantes.

    O papel do autor e de trabalhos que organizam e reordenam questões são extremamente importantes – até para fazer/dar espaço para sugir coisas novas!

    Ah… e Barthes é sempre Barthes, claro…

  7. ligialana disse:

    esqueci de deixar meu blog: http://ligialana.wordpress.com/

  8. Cara Alessandra,

    Nunca li Barthes (ou li? Acho que “Aula” é dele, mas faz tanto tempo…), ou algo de teoria literária e, assim, fiquei um pouco confuso com a definição de erotismo que você cita. O que eu entendi, numas poucas palavras, é que algo erótico é “teasing” (acho que a palavra em português seria provocador ou provocante, mas não sei bem se é a mesma coisa). Se for essa mesma a idéia expressa no texto, não sei se concordo: algo provocante é interessante para as mulheres, enquanto os homens preferem algo mais explícito. E a leitura é uma atividade sem gênero (ou seria algo feminino?). Enfim, por pura coincidência, estou lendo “Delta de Vênus”, de Anais Nin, que espero comentar em breve: não sei se o classifico como algo erótico ou pornográfico… Parabéns pelo blog!

    Um abraço.

    • Dedalus,
      a ideia que Barthes usa sobre erotismo é no sentido de provocante mesmo. O texto que vai fisgando, seduzindo o leitor ou leitora (o texto não tem gênero, claro). Silverstone usa essa citação para discutir a falta de novidade (ou de erotismo) que a mídia traz.

  9. Juca disse:

    Bem…er…quer dizer…o post é uma delícia.
    Nele o erotismo aparece e desaparece, feito vagalume tarado nas noites quentes de verão…rsrs
    A “cintilação” de Barthes (1976:9-10) é inspirada na bioiluminescência* destes insetos.

    * do grego “bios” (vida) e do latim “lumen” (luz)) é a produção e emissão de luz por um organismo, resultante de uma reação química durante a qual energia química é transformada em energia luminosa.

    Bjs pascais!

  10. Cássia disse:

    O post e os comentários são eróticos, provocantes!
    Valeu, Ale!
    Feliz Páscoa, todos os dias!

  11. Roberta disse:

    O tema atraiu muitos posts…Por falar em livro eu estou lendo A LÓGICA DO DINHEIRO…tambem é assunto desejado por todos. O autor esqueci, mas o livro é bom.

  12. Marco disse:

    Nossa,esse negócio de erotismo alavanca comentário pra caralho…Ops…
    Vou falar dele também no meu blog. É claro quem sem o olhar acadêmico. Mas voltando a vaca fria… Um cotovelo escondido pode até ser erótico, o problema é quanto se revela em rugas e pelancas que creminho nenhum deu jeito.

  13. Milton Corrêa disse:

    A minha eterna professora Alessandra CArvalho é talentosa demais. Não poderia ser diferente. Afinal é Santarena!

  14. Lacy disse:

    Voltando do cerrado goiano, onde vi imensos formigueiros bioluminescentes, que cintilam à noite como árvores de natal, adorei o post e o comentário do Juca.
    Para livros eróticos, no sentido bartheziano, recomendo o inglês Ian McEwan (http://www.ianmcewan.com). Alguns títulos em Português: “Sábado”, “A Praia”, “Amor para Sempre”, “Desejo e Reparação”.

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